Ribeirão Preto, 08 de Setembro de 2010

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Editorial: Uma visão crítica do médico
Vivenciamos um momento precioso da oftalmologia, onde a melhora quantitativa da acuidade visual do nosso paciente já não é mais o único objetivo. Somos hoje capazes de avaliar e diagnosticar alterações visuais que há pouco tempo nem sabíamos existir. Exemplo disto são os testes de ofuscamento, de sensibilidade ao contraste e, mais recentemente, a aberrometria. Sabemos hoje o quão insatisfeito um paciente com 100% de visão (20/20) pode estar, e porque. Qualquer oftalmologista disposto a oferecer o melhor para seus pacientes não pode deixar de incluir estas variáveis na sua avaliação diagnóstica, bem como utilizá-las para planejar a melhor opção terapêutica para cada paciente. Buscamos oferecer melhor qualidade de visão com novos métodos terapêuticos, como a cirurgia refrativa personalizada com wavefront. Muito me entristece saber que apesar da oposição de renomadas instituições, como a AAO - Academia Americana de Oftalmologia e ASCRS - Sociedade Americana de Cirurgia Refrativa e Catarata, a ortoceratologia, um tratamento de 1960 revisitado, esteja recebendo adeptos dentre nós. Diante da nossa crescente preocupação com a estrutura corneana e com a possibilidade da indução de ectasias, parece no mínimo insólita a proposta de provocarmos intencionalmente uma distorção da curvatura corneana com a utilização de lentes de contato durante a noite. Sim, vocês leram certo: lentes duras e de uso noturno. Isso vai de encontro a tudo que acreditamos nocivo a saúde da córnea. Como comparou Duke-Elder em seu compêndio homônimo com os tamancos das chinesas: restringir a forma sim, mas a que custo? O uso de Lentes de Contato diminui a oxigenação corneana, pode danificar as células caliciformes e límbicas, alterando o mecanismo de lubrificação ocular, esta relacionada à perda de células endoteliais e, mais grave, a indução e progressão do ceratocone. Devemos nos lembrar que a principal indicação da orto é em miopia e em crianças. A córnea míope já é estruturalmente mais fina que a média da população, e a córnea infantil se tiver a predisposição a ectasia, esta ainda não terá se manifestado. Precisamos ser mais críticos em relação às novas modalidades terapêuticas em discussão no momento. Precisamos ter uma opinião fundamentada em fatos e ter argumentos para sustentá-la. Nossos pacientes nos cobrarão.

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